Aleatórios olhares
  

afonso alves - 02/06/2008

 

o dia e a noite - cravados pela luz

música para quem vive  -  perto

                       indiferente guerra de acordar para ambos  

o ponto no peito - emana

           no peito -   mana

 

começa a composição de voz

                   positividade de  movimento

afonso alves - hoje

 

 

 

 



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 21h18
[] [envie esta mensagem] []


 
  

http://bowartinternational.blogspot.com/2008/06/conto-seleciomado.html



Conto meu.

mês de julho de 2007

Ayahuasca ou a união rápida



A extensão-extroversão tem apenas um tempo e, com ele, o corpo é aberto. É dissimuladora quando pretende ir ao âmago das substâncias, pois acaba por encontrar a paixão humana sutil. O sopro que encontrei naquela tempestade trovejou em meus ouvidos como abismo desconhecido. Foi balsâmico e os miasmas que trouxe foram deixados pelos pontos centrais do corpo em atenção. Sentado em torno da mesa central do culto, o trovão e a chuva levaram-me para as células do corpo; um desenho feito rio torrente escarificou minha face, meus nervos foram alongados pela força do vegetal. Chega! Minha mente não suporta esse tremor por instantes, os músculos distendem em sinapses solares; nesse não bastar, ainda meu corpo perde sua locomoção. Nada guia para além da imanência, nada pode ultrapassar a junção dessas plantas que afogam quem delas se preenche. Os punhos articulados, secos por tanta melancolia de ficarem petrificados de imobilidade, são agora leves. Decidimos sair daquela concentração e caminhar pelo cerrado. Fomos em direção à mata; sem pensar aonde chegar, caminhamos quinze quilômetros até uma casa de pedra. Levei mais um pouco do chá sagrado para ter forças de descer e subir os labirintos que estavam ali esculpidos. O orvalho esquentava nossos chakras sob aquela energia cerrada, e o fáustico olhar induzido levava-me a passados irrestritos. O frio não atingia profundamente. Nem sentia a altura da chapada ou os choques térmicos que meu corpo provocava. O ar estrelado da água mascarava nossas faces com um aspecto de velhice; formigava no corpo uma junção entre as águas corporais e as águas fluídicas. Tudo se saturava, mas era um saturar suportável. Queria mergulhar naquele ar verde-cinza para arrefecer minhas dobras, que se cristalizaram. Um corte no centro de minha testa é feito. Depois disso, não houve mais nenhum pensamento dissimulado. As faces sem véus podiam ser vistas somente naquele dia.

 

mês de julho de 2007


Afonso Henrique Rodrigues Alves (nascimento - 26/04/1985)




Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 11h05
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Drouot, Patrick ----O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999. Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía. ISBN 85-01-05626-X  1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

1 parte do excerto.

Em liberdade, esse poeta resolveu rodar um filme na floresta tropical amazônica. Tirou o argumento de uma obra sobre um culto de seringueiros que adoram uma poderosa beberagem amazônica, conhecida sob o nome de ayahuasca. Um chá amargo, produzido a partir de uma planta que se encontra por toda a extensão do continente sul-americano, mas que cresce sobretudo no alto Amazonas e no Orenoco. O cipó, da grossura de um polegar, desenvolve-se nos territórios quentes e úmidos, onde cresce enrolando-se nos troncos das árvores. Desde tempos imemoriais, a ayahuasca é consumida por ocasião dos rituais xamânicos de cura.

Ayahuasca, em língua quíchua, significa o "vinho das almas" ou a "liana dos sonhos". Aya quer dizer "morto", ehuasca, "cipó".

Nosso anfitrião conta-nos que os conquistadores descobriram nos Andes um povo altamente civilizado, que possuía um profundo conhecimento das plantas que ensinam. Já os incas pareciam deter os segredos da ayahuasca, uma beberagem que torna possível a comunicação com o outro lado. Na época da conquista, os missionários falavam de profecias durante sacerdócios do sol, "no decorrer dos quais as visões produzidas revelaram o fim da civilização inca".

– Nunca encontramos indícios escritos estabelecendo que os incas utilizavam as plantas psicotrópicas, mas é muito provável – diz Alex. – Os antigos mitos da Criação dos povos amazônicos mostram que a combinação das duas plantas nativas da Amazônia (cipó e folha) produz uma beberagem sagrada, que faz parte integrante de sua cosmologia. Os povos da floresta tropical conhecem os segredos dessa bebida, que lhes oferecia as chaves para descobrir suas origens.

 Chegada a noite, vamos dormir num quarto rústico. Aqui também o ventilador faz um barulho infernal.

Na manhã seguinte, o barqueiro nos espera. Gilles Dupin, Alex Polari, Liliane e eu embarcamos para a última parte da viagem.

                Subimos o rio Acre durante várias horas. Neste local, o rio tem uns três quilômetros de largura! Podemos apreciar as granjas amazônicas típicas montadas sobre pilotis, as pequenas plantações de bananas, mangueiras, goiabeiras e arrozais– de tempos em tempos, os habitantes acenam para nós. Um fabuloso mosaico de cores exibe-se entre o azul do céu e a ferrugem da água. A noite tropical nos surpreende quando chegamos ao cruzamento de dois rios. Em alguns minutos apenas, um amplo manto de sombra envolve toda a floresta. Longe de termos chegado a nosso destino, decidimos pedir hospitalidade numa granja que margeia o rio Acre.  Passamos uma noite agradável na companhia dos moradores – o dono da casa, sua mulher, o avô e três crianças que nos observam como se fôssemos marcianos. O lugar é modesto mas encantador. A granja cobre uma superfície de vários hectares. Aqui os tesouros mais preciosos são pilhas para o aparelho de rádio, velas e canivetes – nossos amigos do Rio de Janeiro haviam-nos aconselhado a levar Opinel n° 81! Fazemos uma refeição frugal, composta de batata-doce, arroz e bananas fritas, e em seguida o dono da casa fez questão de mostrar-nos sua propriedade.

      Na manhã seguinte acordamos por volta das cinco horas, pois o dia clareia muito cedo nos trópicos. Para dizer a verdade, foram os ruídos da floresta que nos arrancaram ao sono. Depois do silêncio da noite, cortado de tempos em tempos pelo canto de algum pássaro noturno, a música da floresta torna-se de repente ensurdecedora com sua miríade de pipilos, grulhados, urros e uivos.

  Retomamos a navegação, e a barca entra num novo rio, o rio Mapiá. Mergulhamos cada vez mais profundamente no coração da floresta amazônica. O rio fica mais estreito – de dez a vinte metros de largura. Os ramos das árvores das duas margens chegam a tocar a água, criando uma espécie de túnel de esmeraldas, dando a impressão de estarmos no interior de uma catedral verde. É um espetáculo extraordinário, que não consegue cansar os olhos. Mais estreito o rio, troncos de árvores ali atirados pela força dos raios nos obrigam a descer na água para livrar a barca dos obstáculos. É quando nos lembramos do táxi que a todo momento tínhamos de desatolar...             Depois de mais algumas horas, chegamos ao destino. Foram três dias de viagem do Rio de Janeiro a Céu do Mapiá. Tiramos nossas coisas da barca e entramos na floresta. Algumas centenas de metros mais tarde, deparamo-nos com a aldeia de pequenas casas de madeira. Não precisamos de muito tempo para admirar a coragem desses homens que tiveram de lutar contra a floresta para conseguir alguns hectares de terra propícios à agricultura e à criação de animais. O governo brasileiro concedeu aos residentes de Mapiá uma reserva ecológica de 550 mil hectares que lhes permite subsistir e levar uma existência decente.            Alex nos recebe em casa, e sua mulher, Sônia, nos dá boas vindas. Logo colocam à nossa disposição uma casa para todo o período de nossa estada, a uns cem metros da deles, à beira da floresta. É uma espécie de cabana de madeira típica da floresta tropical, com dois cômodos montados sobre pilotis a um metro do solo e uma mobília das mais rudimentares: um colchão e algumas velas. Quanto ao banheiro, indicam-nos com um gesto a floresta e o riacho que serpenteia entre árvores imensas.

   Manifestamos imediatamente o desejo de saber se há insetos, piranhas ou animais perigosos. Nossos anfitriões caem na gargalhada:

    – Fiquem tranqüilos, vocês não correm qualquer risco.

  Com efeito, será o mais belo banheiro que jamais tivemos. A água à temperatura ambiente é de 28° C e ali ficamos com água pela cintura; podemos assim tomar um banho sem o menor medo.

Experiência com a ayahuasca - Santo Daime 

                Vamos enfim fazer a experiência com a ayahuasca, batizada de Santo Daime pela comunidade de Céu do Mapiá. Para essa gente da Amazônia, o inferno verde dos conquistadores de outrora tornou-se o paraíso verde de todos aqueles que desejam lançar-se num processo de autoconhecimento.

                Alex sugere-nos que o mito bíblico do fruto proibido pode muito bem ser apenas uma menção às plantas sagradas, que, definitivamente, favoreceram a passagem da semiconsciência biológica à consciência humana: outro povo, outro tipo de crença. Aqui, no coração da floresta tropical, entre os igarapés, uma comunidade tenta recriar um modo de vida esquecido há muito tempo – uma existência em que os cuidados cotidianos e a conexão com o divino passam pelo uso de uma planta sagrada. A ingestão de ervas de poder é uma experiência nova para nós: até então utilizávamos, a fim de favorecer a expansão da consciência humana, ritmos, músicas ou mantras, na mesma linha dos xamãs da América do Norte e dos sábios do Oriente. Entretanto, nesta floresta amazônica, o recurso às plantas parece-nos um costume inteiramente normal, bem-adaptado à maneira de viver dos habitantes da selva.

                Alex Polari de Alverga, nosso anfitrião, é considerado um "padrinho" espiritual no movimento do Santo Daime. Interessou-se pelo Daime quando de sua visita à Colônia Cinco Mil, no Acre, no final dos anos 70. Foi um dos primeiros citadinos que foram instruídos nesta doutrina pelo padrinho Sebastião Mota de Melo. Em 1984, Alex foi autorizado por aquele a abrir um centro do Santo Daime nas montanhas tropicais de Mauá. Fundou em seguida a comunidade de Céu da Montanha, um dos 12 centros filiados à Igreja principal de Céu do Mapiá. Numa de nossas muitas conversas sobre o uso da ayahuasca por seu movimento, ele nos explicou:

                – A cerimônia é baseada em rituais católicos, com cantos e hinos que nosso fundador "recebeu" por meio da miração, a visão mística produzida pela ayahuasca. A miração, que significa ao mesmo tempo visão interna e êxtase, é o modelo de uma forma de consciência na qual o eu se concentra na realidade interna. Ela favorece a consciência espiritual necessária para que a vida possa continuar a desenvolver-se em nosso planeta.

 – Mas o que é o Daime? – perguntei à Alex.

Olhos perdidos no espaço, nosso anfitrião respondeu:

– O Daime é um sacramento, um veículo para a Força, para o Ser divino presente na floresta tropical e em toda a Criação. O Daime mantém uma relação natural com nosso cérebro, que funciona como uma chave para abrir a porta de nossa consciência. Por um lado, a mistura do cipó com a folha provoca diversas reações neuroquímicas baseadas em suas propriedades moleculares; por outro lado, seus alcalóides, divindades inerentes aos componentes das duas plantas, ajudam o homem a reintegrar e compreender um sistema de conhecimentos que remonta às suas origens. Além disso, a beberagem ajusta e reorienta o sistema nervoso, os meridianos e as energias internas que regulam as conexões entre o corpo, a alma e o espírito.

No segundo dia de nossa estada ali, logo depois do meio-dia, vamos a uma casa na boca da floresta para nosso primeiro encontro com o espírito da ayahuasca. Somos umas dez pessoas: Alex, sua esposa Sônia, a filha mais velha do casal, o filho de 18 anos, Gilles, Liliane e eu, além de mais dois ou três membros da aldeia.

 Reunimo-nos no terraço do primeiro andar, onde se acha erguido um altar, com uma pequena cruz – parecida com a cruz de Lorena – sobre um pedestal de madeira de cerca de vinte centímetros de altura e quarenta centímetros de largura e comprimento. Sobre a toalha de linho branca que recobre o altar, acham-se dispostos cristais, um deles de quartzo, ametistas e um pequeno buquê de flores. Há também duas garrafas de ayahuasca, uma clara, a outra mais escura, devido a uma concentração maior de ervas.

 Juntamo-nos em torno do altar, onde Alex e Sônia rezam uma ave-maria e um pai-nosso. Liliane e eu ficamos surpresos, pois para nós a ayahuasca é uma planta xamânica, uma planta psicoativa. No entanto, se levarmos em conta o sincretismo religioso brasileiro e sua capacidade de absorver diversas correntes de pensamento, isso se torna perfeitamente compreensível. Alex pega a garrafa mais clara, de diluição mais fraca, e despeja uma dose mínima em copos brancos. Enquanto bebo, agradeço mentalmente à planta pelo ensinamento que ela vai me dispensar. A beberagem parece-se com o suco de maçã que encontramos em nossas lojas dietéticas. É amarga e coça a língua. Depois nos sentamos, encostados na parede de madeira. Ao lado de Liliane, contemplo a paisagem luxuriante que se oferece a nossos olhos e escuto os ruídos da natureza exuberante dominados pelo canto particular dos pássaros.

Tínhamos combinado que Liliane consultaria regularmente o relógio para registrar os efeitos sucessivos da beberagem. Durante o primeiro quarto de hora, não acontece muita coisa; depois, pouco a pouco, dou-me conta de alterações visuais, sobretudo no nível da percepção do verde vegetal. A floresta parece aproximar-se e em seguida recuar lentamente, como num ligeiro balanço. As modificações da percepção sensorial são discretas. Liliane observa-me em silêncio, e sinto que ela também entra num estado alterado de consciência.

A experiência vai já para vinte minutos. Os outros membros do pequeno grupo estão sentados, igualmente em silêncio. Alguns conservam os olhos abertos, outros os têm fechados.

Depois de 25 minutos, sinto ondas percorrendo-me o corpo, como uma lenta ressaca do mar; começam em minhas coxas e sobem até a garganta. É então que os filhos de Alex e Sônia começam a entoar hinos acompanhados ao violão. O anacronismo suscitado pela utilização de uma planta xamânica no quadro de um ritual cristão surpreende-nos novamente. Viéramos buscar uma experiência de natureza xamânica, uma experiência de expansão da consciência controlada, um diálogo com uma planta psicoativa, e percebemos que a ingestão da beberagem deve efetivamente operar-se no quadro de um ritual, xamânico ou não.



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h58
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

Drouot, Patrick - O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999. Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía.

ISBN 85-01-05626-X  1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

 

Os hinos e os ritmos são necessários para "balizar" a viagem. Enquanto os assistentes cantam, Liliane e eu permanecemos silenciosos, atentos às nossas modificações sensoriais.

                Quarenta minutos depois, parece-nos que a floresta ganha animação. Percebemos gradações de cores, variedades de verde que antes não tínhamos sequer notado. Descubro os espíritos da floresta, um pouco da maneira como às vezes julgamos vislumbrar a forma humana de uma rocha.

                Quarenta e cinco minutos depois, os cantos despertam em mim um sentimento de lassidão. Levanto-me, desço as escadas para sair da casa e dirijo-me à floresta. Sinto-me atraído para uma trilha margeada de árvores. Devido à modificação de minhas percepções visuais, a trilha me dá a impressão de um arco verde-esmeralda. Sinto o chamado da "rainha Floresta", no momento em que uma sensação de náusea apodera-se de mim. Não fico surpreso, pois já me tinham prevenido de que isso poderia ocorrer. Contemplando essas novas tonalidades do verde, percebo finalmente que me acho sob a influência da ayahuasca.

                Mas a experiência está apenas no começo. Em nossos cálculos posteriores, estimamos, Liliane e eu, que seu paroxismo teve lugar entre 45 minutos e uma hora e meia depois da ingestão.

                Os participantes que ficaram no terraço me observam. O chamado da floresta torna-se cada vez mais intenso, mas procuro reunir-me a eles e sento-me no meio do círculo.

                Liliane, que não teve força para acompanhar-me, experimenta por sua vez a necessidade súbita de reencontrar a terra. Ela levanta-se lentamente e dirige-se ao limiar da floresta.

                – Precisei de cinco minutos – contou-me ela depois – para percorrer esse trajeto, que me pareceu árduo. Experimentava um certo peso no coração, como se fosse ter taquicardia. Meu corpo não estava realmente anestesiado, mas sob o domínio de um leve torpor. Meus gestos e movimentos pareciam desacelerados, e eu duvidava mesmo de ser capaz de andar. Senti-me melhor quando meus pés tocaram a terra. Enquanto sentada no terraço, podia ver a floresta ganhando movimento. Ela se tornava viva, como no país das maravilhas de Alice. Depois, quando desci, vi também esse arco verde me chamando. Fui invadida por uma grande tristeza e chorei, chorei na floresta, mas também com a floresta.

                Levanto-me outra vez e vou ao encontro de Liliane, que anda lentamente.

                – Não se afaste muito – recomenda ela –, a floresta o está chamando.

                Experimento efetivamente essa atração poderosa pelo ser vegetal que é a floresta tropical à minha frente. Uma primeira diarréia obriga-me a procurar sanitários naturais – um pequeno buraco no chão. Retorno em seguida a orla da floresta e percebo Liliane uns vinte metros à minha frente. É aí que a experiência realmente começa.

                De tempos em tempos, o grupo no terraço pára de cantar, e distinguimos os ruídos da natureza – nossa capacidade auditiva aumenta sob a influência da planta. Tais modificações são cada vez mais vivas. Por momentos, temos a impressão de sermos vigiados. Alex nos explicaria depois que o grupo tomava conta para que, sob a influência da planta, não nos aventurássemos muito longe na floresta com o risco de nos perdermos.

                Alguns minutos mais tarde, voltamos ao terraço. Fecho os olhos e logo percebo feixes de luz e um calidoscópio de formas geométricas de cores muito intensas e muito luminosas. Já havia vivido experiências desse tipo no Monroe Institute ou em virtude de outros estados de expansão da consciência, mas nunca com tal riqueza visual. Essas impressões coloridas rebentavam como rajadas de vento: vermelhos muito intensos, verdes pastel, túneis, quadrados... Parece que é um tipo de manifestação relativamente freqüente, sobretudo na primeira vez.

                Vejo mulheres magníficas e peço à planta que se mostre tal qual é. Aparece uma gárgula, e digo-lhe mentalmente:

                – Não, não é você!

                De repente desenha-se uma paisagem maravilhosa. Uma floresta onde andam animais que não conheço – a planta oferta-me a visão de um mundo antediluviano. Os hinos cantados pelo grupo incomodam-me consideravelmente. Tenho vontade de pedir-lhes que se calem para que eu possa mergulhar no silêncio e na experiência direta. Respeitamos no entanto o ritual e as pessoas presentes, cuja profunda sinceridade podemos sentir.

                – Quando voltei a sentar-me –contaria Liliane mais tarde–, notei que minhas percepções auditivas e a gama dos sons estavam amplificadas, especialmente quando Sônia se levantou para deixar o recinto. Senti o farfalhar do pano de sua saia, o arrastar de seus passos no chão, ruídos a que geralmente não prestamos atenção. Ouvia o canto de cada peça de roupa, o deslocamento dos pés e dos braços, e até os movimentos da cabeça. O som parecia deformado; a acuidade auditiva, de uma extrema sintonia. Meu cérebro esquerdo, racional, disse a si mesmo que os sons nos chegavam de maneira holográfica; em outros termos, já não era a orelha que ouvia, mas o cérebro.

                Em geral, os sons são transmitidos ao cérebro pelo nervo auditivo, mas numa perspectiva holográfica ouvimos como o cérebro ouve, de acordo com um espectro de freqüências nitidamente amplificado. Já não se trata de um aumento horizontal do espectro sonoro, mas vertical. Tinha-me interessado, havia uns dez anos, pelos trabalhos do engenheiro argentino Zurachelli, que produziu sons holográficos audíveis com a ajuda de um capacete de alta fidelidade. A gravação holográfica do riscar de um palito de fósforo permite sentir o odor do enxofre. O cérebro se deixa enganar. Ele é precipitado numa realidade virtual. Era exatamente o que acontecia durante nossa experiência.

                Quando as informações visuais e sonoras são transmitidas ao cérebro no estado normal de vigília, nota-se uma perda freqüencial, ao passo que aqui tudo é puro, sem filtragem do órgão intermediário. A ayahuasca provoca uma dupla percepção: a do ambiente externo e a das quatro dimensões escondidas atrás das quatro dimensões ordinárias, o que significa dizer, à maneira lakota, o mundo oculto atrás do mundo.

                Tais reflexões conduzem-me aos universos octodimensionais do matemático inglês Roger Penrose. Estes comportam quatro dimensões reais – altura, largura, comprimento e tempo – e quatro dimensões imaginárias justapostas umas às outras e revelando a visão xamânica de um universo de oito dimensões.

                A experiência favorece pouco a pouco o acesso a um conhecimento esquecido. Não são somente as propriedades dessa beberagem xamânica que me aparecem, mas também as possibilidades holográficas do cérebro. Tenho a indescritível impressão de entrar no holograma espiritual que de codifica este outro holograma que chamamos de mundo físico. A questão que se coloca é saber se esse conhecimento psicoativo provém do interior do cérebro humano, como pretendem os cientistas, ou do mundo vegetal, como o afirmam os habitantes da Amazônia. É claro, no entanto, que eu sentia a influência de um ensinamento exterior a meu ser.

                Ao cabo de uma hora, sinto vontade de vomitar. A ayahuasca é tanto um purgativo quanto um depurativo, e dou-me conta de que a planta está me limpando e me preparando para transpor um outro patamar da experiência. No terraço, os cantos e os hinos tornam-se cada vez mais insistentes, e sou subitamente tomado pela angústia à idéia de não ter mais o controle sobre meu ser, de ver-me submetido a uma influência exterior que não possa dominar. Avalio de repente como é fácil deixar-se doutrinar e experimento um medo fugaz de soçobrar em alguma coisa que não me diz respeito. Percebo ao mesmo tempo que é esse medo de perder minha liberdade individual, de não voltar a recuperar o estado anterior, que me permite reagir. Utilizadas com maus propósitos, as plantas psicoativas constituiriam um terrível instrumento de lavagem cerebral.

                Levantamo-nos ainda uma outra vez, Liliane e eu, e voltamos a descer as escadas para compartilhar nossas impressões.

                Temos consciência de que podemos andar, pensar e reagir. Nossa faculdade de raciocínio parece continuar intacta, mas como colocada em vigília – é uma outra faculdade, que analisa toda uma série de influxos até então desconhecidos para nós.

                – Utilizo – diz Liliane – meu conhecimento xamânico do elo que nos une à terra e à energia da floresta para me ajudar a viver esta experiência de maneira plena e inteira.

                Caminhamos. Tudo é movimento e cores. As árvores estão vivas, um vôo de papagaios azuis passa acima de nossas cabeças, tenho a impressão de vê-los em relevo. É como se tivéssemos saído de um filme em preto-e-branco estático para entrar numa vida animada, dinâmica, em cinemascope, em cores e em três dimensões.

                – Ancore-se à terra – indica minha companheira–, é ela quem lhe dará a Força.

                Percebo que a beleza dos hinos e dos cânticos mascara um medo difuso, provavelmente ligado a um passado anterior a esta vida.

                Olho para Liliane, e é meu ser espiritual quem a vê. Percebo que o filtro de meu pensamento e de minhas percepções normais quase desapareceu. Vejo em torno dela como que uma dança de cores e de energias vibratórias. Distingo claramente seu duplo etéreo, depois alguma coisa desliza em minha cabeça, leve como uma pluma. Sua presença entra em mim – sua própria essência.

                Capto o menor de seus pensamentos idênticos a ideogramas sensoriais. Sob a influência da planta psicoativa, o fenômeno telepático realiza-se, e nós o vivemos simultaneamente. Eu sou ela, ela é eu – mais nada a esconder. Ela sabe o que eu sei, e o mesmo acontece comigo. As questões colocadas em nossas cabeças, nós as recebemos e a elas logo respondemos sem trocar palavras.

 



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h54
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

Drouot, Patrick - O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999. Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía.

ISBN 85-01-05626-X  1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

Dois estudiosos, Zerda Bayon e G. Fischer Cardenas, interessaram-se pela relação existente entre a ayahuasca e a telepatia. Conseguiram isolar um alcalóide, que eles batizaram de telepatina e que veio a revelar-se como a harmina. Deixemos claro que as reações telepáticas não são a peculiaridade das experiências praticadas com a ajuda da ayahuasca. Elas estão, com efeito, associadas a outras tradições xamânicas, especialmente o xamanismo siberiano da amanita (um cogumelo tóxico) e os rituais mesoamericanos do peyoti. Esses estados extáticos permitiam aos seres humanos alcançar uma espécie de consciência transpessoal que favorece a telepatia e a premonição.

                A utilização da ayahuasca não desencadeia sistematicamente experiências telepáticas, sobretudo quando das primeiras sessões. Duas horas depois da ingestão, a experiência diminui e uma sede imperiosa apodera-se de mim, tenho a impressão de ter a boca cheia de algodão. Três horas mais tarde, o ritual cessa e evocamos com nossos anfitriões as impressões que tivemos.

                – Acho que estão de volta uns oitenta por cento de mim – observa Liliane. – Ainda existem ondas de tempos em tempos, mas o processo está se esgotando.

                Os efeitos psicoativos ganham intensidade durante os quarenta a sessenta primeiros minutos. Em seguida há um patamar de cerca de uma hora, a partir do qual o efeito começa a perder força. Tudo somado dá umas quatro ou cinco horas.

                Deixamos nossos anfitriões e dedicamos a tarde a um passeio pela floresta, usando apenas trilhas já marcadas para não nos perdermos. Quatro horas depois ainda havia resquícios da experiência, pois quando fechávamos os olhos continuávamos vendo uma dança de cores. Passamos uma tarde tranqüila, sem, no entanto, nos livrarmos inteiramente de um medo difuso. Chegada a noite, custo a pegar no sono, mas na manhã seguinte sentimo-nos descansados, bem-dispostos e calmos.

                Liliane e eu juntamo-nos a Alex e Sônia, que nos recebem com um pouco de arroz e molho de soja. Essa primeira experiência foi para nós como um trabalho de limpeza e abordagem. Nossos amigos são atenciosos conosco e ficamos reconhecidos.

                – Os efeitos variam de pessoa para pessoa, mas não raro acham-se relacionados com o nível de aprendizado – explicam Alex e Sônia. – É normal que os iniciados tenham visões de animais... serpentes, leopardos... comparáveis às visões experimentadas nas tradições psicotrópicas indígenas. Algumas delas dizem respeito a amigos ou membros da família; outras, a vidas anteriores. Para nós, as mirações (visões) provocadas pelo Daime são guias mais autênticos que os despertados pela perspectiva material ou científica. Com efeito, as mirações proporcionadas pelo trabalho ritualístico são notavelmente similares às visões e aos estados extáticos descritos pelos santos e os místicos de tantas religiões.

                A selva estende-se diante de nós enquanto Alex prossegue sua explanação.

                – As plantas psicoativas abrem as portas da comunicação entre o espírito e o astral, uma dimensão paralela inerente ao homem e ao cosmos. Quando tomamos consciência da realidade de nosso universo interior, percebemos que somos ao mesmo tempo o conjunto do universo e cada uma de suas partes. Portanto, o universo inteiro comunica-se com o nosso corpo e o nosso espírito, uma noção presente nas tradições esotéricas há muitos milhares de anos.

                "As plantas psicoativas são essencialmente um atalho. Antes de enveredar por esse caminho, convém todavia dar mostras de grande prudência. Não é um caminho para aventureiros e exploradores, é uma senda precisa, que foi cuidadosamente mapeada pelo mundo xamânico amazônico. Contudo, esse atalho só nos levará à verdade se seguirmos os passos dos mestres que nos precederam. Nossas cerimônias duram geralmente uma noite inteira e a maioria delas segue o calendário da Igreja católica.

                "A comemoração de um dia santo começa na véspera e vai até a manhã seguinte. A cerimônia tem início durante o pôr-do-sol. A primeira dose da beberagem é distribuída depois de os participantes rezarem um rosário. Durante a primeira parte do ritual, hinos são acompanhados pelos ritmos dos maracás e chocalhos. Cada um dança e canta. Três fileiras de homens e três fileiras de mulheres posicionam-se de maneira a formar uma estrela de Davi em volta da mesa, no centro da igreja. Os participantes são organizados de acordo com a altura. Durante os hinos, os dançarinos deslocam-se obedecendo a um esquema rítmico e a passos muito simples, mas sincronizados.

                – Quais são as funções de cura do ritual e que papel desempenham os hinos? – pergunto.

                – O Santo Daime proporciona a criação de uma energia extática, motivo por que tais rituais são chamados de "trabalhos". Os iniciados sabem que, quando começam a trabalhar, têm a responsabilidade de se tornarem seres perfeitos e fundir-se com Deus.

                – Durante a experiência de ontem, senti náuseas e os hinos me incomodaram. Por quê? – pergunto ainda, olhando para Alex pelo canto dos olhos.

                – Na comunidade – responde ele, sorrindo–, costumamos dizer que algumas pessoas atravessam passagens difíceis durante a cerimônia. Têm náuseas, vômitos, diarréias, sentimentos negativos, momentos de depressão ou ansiedade intensa. Essas passagens são momentos-chave do processo de aprendizagem. Os hinos desempenham então um importante papel de cura.

                Foi exatamente isso que Agustín, um xamã peruano que utiliza uma outra planta psicoativa, o san pedro, me explicou no congresso de Canela. Os ícaros, cantos xamânicos, desempenham um papel terapêutico importante nas cerimônias peruanas. Eles têm uma importância fundamental porque estimulam e desencadeiam as visões. Em outros termos, os cantos e os rituais trabalham em harmonia para criar um campo morfogenético que sustenta e amplifica a experiência extática.

                De acordo com os xamãs do mundo inteiro, a comunicação com os espíritos estabelece-se graças à música. Essa é a razão por que os cantos cerimoniais ameríndios, maoris, siberianos, sufis, cristãos e amazônicos são tão preciosos. Para os ayahuasqueros, é inconcebível entrar no mundo dos espíritos em silêncio. Imagens tridimensionais transformam-se em sons que o xamã imita entoando as melodias correspondentes.

                Os ícaros servem para invocar o espírito das plantas ou para provocar experiências de natureza xamânica. Permitem igualmente que se viaje para outros níveis de realidade a fim de contatar os seres que ali residem. Os ícaros podem modificar as visões e torná-las mais claras. Os caçadores e os curandeiros escutam assim com muito mais atenção os sons produzidos pelos xamãs para ajudá-los em sua busca. Os cantos dos xamãs iniciados provocam uma ampliação do campo visual, bem como visões de figuras geométricas. O som é um catalisador de visões. As plantas psicoativas são utilizadas para explorar tanto nosso mundo quanto os universos paralelos que transcendem nossa percepção normal. Ao ingeri-las, o ayahuasquero libera-se dos entraves espaço-temporais de nossa dimensão e, com o treinamento, conseguirá passar de um mundo a outro. É a viagem xamânica, tal como foi introduzida no continente americano pelos caçadores siberianos há vários milênios.

                Quando de nossa parada na granja amazônica à beira do rio Mapiá, tínhamos constatado que os jardins nativos são obras-primas de policultura. Eles misturam dezenas de plantas diferentes de maneira aparentemente desordenada. Manifestamos nosso espanto a Alex e Sônia.

                – Sabe, é a ayahuasca que nos ensina a maneira de utilizar as plantas – explica Sônia. – De alguma forma, a ayahuasca é a televisão da floresta. Ela produz imagens, som, tudo em três dimensões.

                Isso correspondia perfeitamente à nossa experiência holográfica da véspera.

                Curiosidade satisfeita, deixamos Alex e Sônia. O dia transcorre calmamente, passeamos pela aldeia, Liliane e eu, trocando nossas impressões. Experiências ulteriores com a ayahuasca nos ensinarão que é essencial apresentarmo-nos à planta de maneira xamânica e pedir-lhe que nos dispense seus ensinamentos. Do contrário, ela pode provocar feixes de cores, efeitos caleidoscópicos, devaneios e arquétipos que o não iniciado acreditará reais. A planta levará a pessoa aonde quiser se não sentir a força de sua vontade.

                – A planta mostrou-se a mim de uma maneira muito bonita – comenta Liliane –, uma mulher verde que saía da floresta e que era ao mesmo tempo a floresta.

                A planta, uma das mais velhas instrutoras da Criação, pode nos revelar a história da terra no tempo em que os vegetais dialogavam com a consciência do homem.



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h48
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Drouot, Patrick - O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999. Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía.

ISBN 85-01-05626-X  1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

 

Preparação da ayahuasca

 

     Na manhã seguinte, Alex Polari e Gilles Dupin levam-nos para visitar o local onde se prepara a beberagem. Vemo-nos cercados pela mais maravilhosa, mais exuberante floresta tropical do mundo. Um verdadeiro jardim do Éden. Laboratório secreto onde, há milhares de anos, os antigos xamãs estudaram os segredos das plantas que falam à consciência humana.

     Nesta comunidade, a preparação da ayahuasca segue um rigoroso ritual chamado feitio. Decorrem vinte e quatro horas entre o momento em que a expedição parte para colher as plantas e o momento em que a preparação termina. Antes disso, vários dias são necessários para explorar a floresta virgem e marcar os sítios onde crescem o cipó e a folha utilizados na preparação da beberagem. Para fazer isso, às vezes o grupo orienta-se segundo determinados tipos de solo e vegetação. Mas não raro a expedição é efetuada sob o efeito da própria ayahuasca, que logo conduz seus membros até cipós muito antigos ou até locais onde as plantas crescem em extraordinária abundância.

     O feitio é um ritual impregnado de um simbolismo espiritual bastante rico para a comunidade de Mapiá. É o maior "teste" de competência e de pureza. Ele guarda analogia com o dos índios que ainda povoam a Amazônia ocidental. Neste rito iniciático, o conhecimento revela-se progressivamente, de acordo com a capacidade de assimilação de cada participante. O ritual desenrola-se em várias etapas: a busca do terreno, a coleta, o transporte, a limpeza dos cipós e das folhas, o cozimento e o refino. Cada uma das etapas exige conhecimentos específicos dos quais dependem a qualidade e a quantidade da beberagem.

     Para os daimistas, o feitio é uma alquimia espiritual de primeira ordem. Neste rito cada qual é o criador de um veículo sacramental que favorece a manifestação dos seres da Natureza e da força cósmica que expressa o amor de Deus. Fazendo-nos visitar a "casa do feitio", onde se desenrola o ritual, Alex Polari observa-nos que o trabalho deve realizar-se dentro do maior silêncio e concentração, pois cada gesto e cada movimento devem ser executados em consciência total. Quando as vibrações são elevadas, o ritual transcorre como um balé.

     Caminhamos pela casa do feitio, e Alex prossegue em sua explicação:

     – Existem várias etapas na preparação. A primeira desenrola-se no próprio âmago da floresta tropical, onde os cipós são colhidos de acordo com um ritual de agradecimento, sob o olhar vigilante dos guardiães invisíveis da floresta. Amarrados em fardos, são depois transportados a longas distâncias e em seguida cortados em pedaços de um palmo e meio. As folhas são colhidas num espaço arejado da floresta, antes de serem limpas uma a uma pelas mulheres, que as livram de quaisquer impurezas, insetos, larvas etc., para serem depois minuciosamente lavadas em grandes jarros. Os pedaços de cipó são limpos e raspados pelos homens. Cada cipó é raspado com a ajuda de uma faca ou de um pedaço de pau, até ficar perfeitamente limpo. É preciso prestar atenção para não danificar a casca, que contém a maior concentração do princípio ativo. Aliás, alguns índios amazônicos só utilizam a casca, jogando fora o resto.

     Manhãzinha cedo, os pedaços de cipó limpos são levados à casa de bateção (para serem triturados), no interior da casa do feitio. Doze homens estão sentados diante de três fardos de cipó com tocos de madeira que pesam cerca de dois quilos. Maceram o cipó num processo que pode levar várias horas, de acordo com o número de cocções previsto para aquele dia.

     Esta etapa, como as outras, exige que se superem os próprios limites, sobretudo os estreantes. A força psíquica despendida é importante, mesmo para as pessoas experimentadas. As batidas devem obedecer a um ritmo cadenciado, fixado pelo puxador. Os tocos de madeira são levantados e baixados em ritmo, de maneira a produzir um som único. Resta fazer uma última inspeção meticulosa das folhas e do pó obtido pela trituração do cipó. Ao nascer do sol, a matéria-prima está pronta para a transmutação. Como diz poeticamente Alex Polari, são as cinzas que encherão as panelas e é por sua ebulição que cada qual renascerá purificado.

     As grandes panelas em terracota, de quarenta a cinqüenta litros, são enchidas alternando-se camadas de cipós e camadas de folhas. Cipós, folhas, água e fogo são os agentes físicos da fusão molecular que produzirá o veículo sagrado, a ayahuasca. Como em toda preparação ritualística, o estado de consciência do grupo é essencial – ele impregna o líquido que já contém as vibrações dos seres espirituais que residem nos cipós e nas folhas da floresta tropical. É a alquimia sagrada realizada durante a braçagem dessa beberagem psicoativa. Em seguida, o grupo de trabalho irá descansar, enquanto os responsáveis pelo fogo trazem lenhas e ficam sozinhos no local com os responsáveis pela filtragem. Eles utilizam grandes tridentes de madeira, chamados gambitos, e dão suas instruções ao "guardião do fogo", que acrescenta a lenha uma a uma no forno e toma conta do cozimento.

     As panelas vão e vêm num balé sincronizado – nem gestos nem palavras inúteis. A atenção é total para evitar os riscos de confusão ou de erro. O conteúdo das panelas é misturado e remisturado, cozido e recozido. A beberagem é várias vezes filtrada para preservar ao máximo os recursos sagrados da Natureza.

     Ao cair da noite, o homem encarregado de mexer o líquido avalia com o tridente o nível da panela. O líquido acobreado ferve lentamente. Cada qual acha-se agora envolvido pela fumaça num clima de mistério e magia. Após um momento – um segundo ou uma eternidade segundo a miração [1] –, o homem responsável pelas panelas dá três pancadas com o tridente no lado do recipiente, invocando o sol, a lua e as estrelas. Dois homens aproximam-se em silêncio, um de cada lado do forno, com as mãos protegidas por um pano, levantam a panela e proclamam:

     – Todo o mistério está no interior do vaso!

     Assim se efetua o feitio, a preparação da ayahuasca, na comunidade do Santo Daime.



[1]              Alex Polari de Alverga, O livro das mirações, Editora Record/Nova Era, Rio de Janeiro, 1984.



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h38
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Drouot, Patrick - O físico, o xamã e o místico I Patrick Drouot; tradução de Luca Albuquerque. - Rio de Janeiro: Record: Nova Era. 1999. Tradução de: Le chaman, le physicien et le mystique. Inclui bibliografía.

ISBN 85-01-05626-X  1. Drouot, Patrick. 2. Xamanismo. 3. Parapsicologia. 4. Misticismo. I. Título.

A experiência xamânica---Na véspera de nosso regresso à Paris, via Brasília e Rio, voltamos uma última vez à floresta para uma nova experiência com a ayahuasca. Acompanhados por Alex Polari e Gilles Dupin, tomamos um outro caminho, sempre no meio da luxuriante floresta amazônica. O lugar escolhido favorece em si a elevação da consciência. A selva nos envolve com suas asas verdes. Sentamo-nos em círculo e conversamos por alguns instantes. Trazem-nos uma garrafinha. Desta vez a beberagem parece mais escura, a diluição mais concentrada, portanto mais poderosa. Escolhemos uma árvore, ao pé da qual estendemos uma toalha branca, e ali descansamos a garrafa e um cristal. Alex observa que se por acaso nos perdermos na floresta durante nossa "viagem", bastará que nos concentremos nesta árvore, que nos apontará a clareira, já que ela representa o ponto de partida e de retorno.

Antes de levar o copinho de ayahuasca aos lábios, concentro-me para pedir ajuda e proteção à planta. Quinze minutos depois, os primeiros efeitos se fazem sentir – mais rápidos e mais intensos do que na primeira vez. A floresta anima-se novamente, invisível aos olhos ordinários, redesenhando-se. Sinto-me ao mesmo tempo participante e espectador, analiso grau a grau as mudanças sensoriais que se operam em mim. Este estado dissociativo permite-me funcionar em dois níveis de consciência diferentes, que se entrelaçam e completam para favorecer a emergência de uma percepção única: a que permite aos xamãs amazônicos realizar seus ritos religiosos.

Passados trinta minutos, contemplo Liliane; seus olhos sondam o longínquo, como alguém que olha para um objeto sem realmente vê-lo. Reparo que minha companheira está percebendo o mundo oculto atrás do mundo. Voltamos a nos tornar vivos entre o vivo e uma alegria indefinível insinua-se suavemente no mais profundo de nossos seres. Sem nos darmos conta, e simultaneamente, os olhos voltados para o chão, descobrimos um reino que nunca tínhamos visto. O infinitamente pequeno apresenta-se diante de nossos olhos maravilhados.

  "Olhe", parece me dizer a planta sagrada, "tudo está inscrito à sua frente. Observe a vida em todos os seus aspectos e aprenda a respeitá-la mesmo sob essa forma."

  Minha percepção se decuplica e percebo arranjos geométricos sobre o solo, aos quais não havia prestado a menor atenção. Cada pedra, por mais minúscula que seja, torna-se uma montanha, cada fiapo de relva, uma floresta exuberante, o mundo do infinitamente pequeno, uma planície imensa bordejada por vales tufosos e montanhas por conquistar. Observamos a construção de cidades e de aldeias de insetos; sob nossos olhos de gigantes, o mundo liliputiano organiza-se num balé dirigido por um mestre invisível.

  Meus olhos são atraídos para uma colônia de formigas que caminha numa vasta pradaria verde. Uma delas lava-se com método, secretando uma saliva branca que passa pela boca, as patas, as antenas e todo o corpo. Um cerimonial imutável. Minha percepção visual torna-se idêntica à dela, como se meus olhos tivessem milhares de facetas – não vejo imagens repetidas aos milhares, antes uma imagem como por uma grade. Além disso, percebo os movimentos mais sutis à maneira de uma formiga. Nesse estado de total abertura, todos os meus sentidos estão exacerbados e vejo que poderia estabelecer uma ponte de comunicação com os insetos. Tenho a impressão de que eles me dirigem uma mensagem olfativa que não me sinto em condições de apreender.

  Meus olhos voltam-se novamente para Liliane, depois para o chão. Um choque idêntico a uma descarga elétrica sacode-me inteiramente.

  – Olhe – falo à minha companheira –, a terra está respirando. Meu espírito racional sugere-me logo tratar-se de uma alucinação. Entretanto, vejo nitidamente a Mãe Terra respirar lentamente, como animada por pulmões invisíveis. Rio, feliz como uma criança.

  Tudo o que nos ensinam as tradições é inacreditavelmente verdadeiro: a terra vive! Temos agora a certeza absoluta. Minhas mãos tocam religiosamente o solo; elevam-se e abaixam alternadamente sob o efeito da inspiração e da expiração de nossa Mãe da Terra.

  Movidos por um impulso súbito, nos levantamos e andamos um pouco pela clareira. Sinto o ambiente com uma acuidade inabitual, como se camadas vegetais se empilhassem em espessuras sucessivas para formar uma tapeçaria majestosa. Paro perto de uma árvore e roço suavemente a casca de seu tronco. Outra sensação indefinível me invade. A planta psicoativa estende uma ponte de comunicação entre a árvore e mim – instala-se uma conversa entre um vegetal e um humano, duas espécies tão diferentes uma da outra. Sinto seu caráter, altivo e imperioso, como o senhor do lugar. Apresenta-me seus domínios, e percebo que o povo de pé – as árvores – possui características e funções idênticas às dos humanos. Há encantadores, resmungões, guerreiros etc. Espíritos vegetais vestidos em vários tons de verde flutuam nos ramos e parecem desejar-nos boas-vindas.

     Todavia a experiência não se parece em nada com o "barato" psicodélico, com o satóri químico. É um ensinamento sagrado que nos é oferecido e somos seu recipiendário. A noção de tempo torna-se imprecisa, não é mais linear, antes espiral, como nas experiências xamânicas.

     Liliane está sentada ao pé de uma árvore.

     – De minha árvore – diria ela em seguida. – Ela me ensina que é o elo entre o céu, a terra e o mundo subterrâneo e que pode ser usada como um elevador para planos ou níveis diferentes. Experimento uma impressão de segurança. É uma protetora. Embora sentada, tenho a impressão de estar de pé. Percebo a floresta e seus múltiplos reinos por meio de dois aspectos de meu ser: o físico, com seus detectores sensoriais exacerbados, e meu duplo espiritual, dotado de outros órgãos de percepção. Estabelece-se uma ponte entre duas partes fundamentais de meu ser. Meu duplo, de pé, observa a floresta e vê um felino de pêlo branco dirigindo-se para ele. Raciocino em dois níveis. No físico, analiso a situação. Duas possibilidades se impõem: fugir ou enfrentá-lo. Meu duplo espiritual faz sua escolha: enfrentar o animal que salta com flexibilidade sobre mim para incorporar-se em meu corpo etérico. A fusão é total. É a experiência última da união de um ser humano e de seu animal totem. É a experiência xamânica por excelência, vivida e relatada pelas mais antigas tradições da humanidade. Outra visão impõe-se a mim. A planta mostra-me a imagem de um sarcófago de pedra, de cor turquesa. É imenso e descansa sobre a areia no fundo da água, aqui, em algum lugar da Amazônia. Vem do espaço, feito por uma civilização de um outro mundo. Foi colocado ali quando a Amazônia ainda era um mar primitivo, em tempos imemoriais.

     Dois anos mais tarde, quando de outra viagem ao Rio de Janeiro, entramos numa loja para comprar alguns cristais e minerais. Liliane sente-se irresistivelmente atraída por um bloco de pedra de cor turquesa e me diz:

     – É ele! É a pedra de que é feito o sarcófago que dorme na selva.

     Pedindo informações à vendedora, ficamos sabendo que se trata da amazonita. Alguns dias depois, em Belo Horizonte, encontramos amigos apaixonados pelas pedras. Durante o jantar, Liliane interroga Lourenço.

     – Para que serve a amazonita? Nosso amigo, engenheiro, responde:

     – É uma das pedras mais duras depois do diamante. Os americanos utilizam-nas para construir as telas refratárias que protegem as naves espaciais Challenger, quando de sua entrada na atmosfera terrestre.

     Uma emoção toma conta de nós: o ensinamento da planta era exato. Um sarcófago de amazonita pura dorme na rainha Floresta, a maior floresta tropical do mundo. Onde está ele? O que pode conter? Quem sabe, a ayahuasca revelará isso um dia. Voltemos à nossa experiência. Embora sem fazer idéia, várias horas haviam se passado e os efeitos começam a diminuir. Liliane e eu agradecemos à planta, bem como à clareira que nos acolheu e tomou conta de nós. Ainda hoje o ensinamento prossegue. Quando caminhamos numa floresta, sabemos doravante reconhecer a árvore mestra – a guardiã do lugar – e o caráter daqueles que a cercam. O verde vegetal mostra-nos sempre suas ricas tonalidades e sentimos a presença dos espíritos da floresta.

 As plantas psicoativas da bacia do Amazonas

 

  O etnobotânico Richard Evans Schultes, uma autoridade mundial em matéria de plantas medicinais alucinógenas e tóxicas, foi um dos primeiros a estudar a utilização da ayahuasca pelos xamãs da Amazônia colombiana. Ele organizou várias expedições à região entre 1941 e 1961.

  Uma das mais antigas experiências humanas é sem dúvida a descoberta de que certas plantas são comestíveis, aliviam a dor, expulsam a doença ou tornam a vida mais tolerável. É provável que o conhecimento das propriedades dessas plantas estivesse restrito a certos membros específicos da comunidade – xamãs ou curandeiros. Num tempo em que o homem acreditava que espíritos controlavam seu destino, não é surpreendente que certas plantas com qualidades psicoativas extraordinárias fossem consideradas como sagradas. Graças a elas, o xamã alcançava estados particulares que lhe permitiam visitar esse famoso mundo dos espíritos. Precisaríamos de vários decênios de observações minuciosas para ir ao encontro do saber adquirido ao longo dos séculos pelos xamãs – tais "especialistas" são tesouros vivos para a humanidade. Se avaliarmos todas essas coisas a partir dos vestígios arqueológicos, veremos que a utilização desses vegetais remonta a tempos muito antigos. O poder de um xamã reside em seu conhecimento da utilização das plantas – e isso parece bem maior na América do Sul do que em qualquer outra parte do hemisfério ocidental.

  O noroeste da Amazônia possuía a mais rica visão de uma vida mágico-religiosa de toda a bacia Amazônica. O termo curandeiros para designar seus homens de conhecimento é redutor. Os antropólogos preferem dizer xamã ou pajé. Se nem todos os pajés são curandeiros, a maioria, entretanto, possui um conhecimento muito rico das propriedades das plantas e de sua utilização no diagnóstico e no tratamento.

     Quando querem comunicar-se com o mundo sobrenatural, os xamãs não raro recorrem a certos tipos de plantas – seja para serem aspiradas pelo nariz ou transformadas em pílulas. Graças a uma planta de visão, o Banisteriopsis caapi, o xamã-pajé diagnostica e cura de doenças ou faz profecias. Os sionas, uma população indígena que vive próximo ao rio Putumayo, ao sul da Colômbia, levaram a utilização das plantas psicotrópicas a seu grau mais elevado. Esta população é famosa no noroeste da bacia do Amazonas por sua capacidade xamânica.

O xamanismo siona está intimamente ligado à utilização da ayahuasca e de outras plantas psicotrópicas. Os aprendizes desenvolvem suas capacidades xamânicas e seus conhecimentos com a ajuda da beberagem. Aprendem assim a contatar as forças sobre-naturais para influir nos eventos da realidade ordinária. Os xamãs sionas só reconhecem três classes de homens na escala do conhecimento: "o homem por assim dizer" "aquele que partiu" e o "adivinho". "O homem por assim dizer" é aquele que não possui nenhuma ou tem pouca experiência com a planta; "aquele que partiu" vivenciou a experiência de sair do próprio corpo e tem certas visões do mundo do outro lado; e é também chamado de "cantador" o "adivinho", também denominado o "profeta" ou "aquele que vê", é o mestre xamã.


[1]              Alex Polari de Alverga, O livro das mirações, Editora Record/Nova Era, Rio de Janeiro, 1984.



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h37
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Estou caminhando através de uma paragem distante. A pradaria está recoberta de vegetação rasteira, esparsa, e de cedros que se concentram em alguns pontos. Penso num vale solitário, numa cratera da lua. Em meio aquele silêncio, estranho e vasto, deparo com um armário todo esculpido. Seu artesanato é notável. Consigo enxergar através de suas portas translúcidas. A esquerda, por detrás do vidro, um rosto de mulher me encara. E o de uma antiga índia americana. À direita, vejo um corvo de um negro azulado. A cena recorda-me um quadro de Magritte.

A cabeça da mulher, de repente, começa a cair para trás e para a frente, em movimentos ritmados, como um metrônomo.

— Quantas vezes preciso dizer — ela me repreende, sem interromper o movimento da cabeça — que o cesto de casamento não está à venda? Você precisa conquistá-lo.

Enquanto estou sendo admoestada, minha atenção desvia-se para o olho brilhante do corvo. Seu corpo gira e ela encara a cabeça da mulher, movimentando-se na mesma batida de um metrônomo.

Fico assustada. O corvo começa a imitar a fala da velha. As duas vozes não se confundem e são tão belicosas que estremeço.

Vi apenas um cesto de casamento em toda minha vida. Sei, porém, que o cesto ainda existe. Onde, ignoro.

— Hyemeyohsts Tempestade

Berlin de Bruyckere



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h33
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Porventura compreenderam a expansão da terra? Onde é o caminho da morada da luz, E onde é o local da escuridão...?

— O Livro de Jó

Não é no espaço que devo procurar a minha dignidade, mas na direção do meu pensamento. Não deverei tê-la mais se possuir mundos. Pela ampli-dão, o universo me envolve e me traga como um átomo; pelo pensamento eu compreendo o mundo.

— Blaise Pascal, Pensées.


 

 

 

Tempo virá em que uma pesquisa diligente e contínua esclarecerá aspectos que agora permanecem escondidos. O espaço de tempo de uma vida, mesmo se inteiramente devotada ao estudo do céu, não seria suficiente para investigar um objetivo tão vasto... este conhecimento será conseguido somente através de gerações sucessivas. Tempo virá em que os nossos descendentes ficarão admirados de que não soubéssemos particularidades tão óbvias a eles... Muitas descobertas estão reservadas para os que virão, quando a lembrança de nós estará apagada. O nosso universo será um assunto sem importância, a menos que haja alguma coisa nele a ser investigada a cada geração... A natureza não revela seus mistérios de uma só vez.

 

— Sêneca, Problemas Naturais

Livro 7, século I

 


Na antigüidade, nos costumes e nas conversas do dia-a-dia, os acontecimentos mais mundanos eram relacionados com os principais eventos cósmicos. Um exemplo interessante é o encantamento contra o verme que os assírios de 1.000 a.C. imaginavam que provocava a dor de dente. Ele começa com a origem do universo e termina com a cura para a dor de dente:

 

Após Anu ter criado os céus,

E os céus terem criado a terra,

E a terra ter criado os rios,

E os rios terem criado os canais,

E os canais terem criado o pântano,

E o pântano ter criado o verme,

O verme procurou Shamash chorando,

Suas lágrimas se derramando diante de Ea:

"O que me darás como comida,

O que me darás para beber?"

"Eu te darei o figo seco E o damasco."

"O que representam eles para mim? O figo seco

E o damasco!

Eleve-me, e entre os dentes

E as gengivas deixe-me morar!...

"Por teres dito isto, ó verme,

Possa Ea destruir-te com a força da

Sua mão!

 

(Encantamento contra dor de dente).

 

O tratamento: Cerveja de segunda classe... e óleo que tu deverás misturar; O encantamento, tu deverás recitá-lo três vezes seguidas e então colocar a poção sobre o dente.

 


os excertos são retidados do livro Cosmos de Carl Sagan.



Escrito por Afonso H. Rodrigues Alves às 10h38
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Satã, confinado assim à instável condição de vagabundo, sem rumo, não possui morada certa; pois embora tenha, como conseqüência de sua natureza angélica, uma espécie de império na vastidão líquida ou no ar, decerto faz parte de seu castigo não ter [...] um lugar em que possa pousar a sola do pé.